segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

The Great Gig in the Sky

Imagem por Rafael Rosenhayme chamada de Great Gig in the Sky

"And I am not frightened of dying,
any time will do, I don't mind.
Why should I be frightened of dying?
There's no reason for it,
you've gotta go sometime."
"I never said I was frightened of dying."(PF)


*Depois de ir a roda gigante*

Sempre corte, reto, cruzando a pele sem cerimônia, você não quer, mas quer, não quer, quer, e inventa.
Despacha as malas sem dizer coisa alguma, futuca o nariz, retira dali algo que incomoda, olha em volta para ver se tem alguém olhando também, e se pega com a observaçao atenta de um espelho, quem estaria a essa hora no aeroporto? me diz.
Iria deixar realmente meio mundo para trás, nem se importava com os outros, não valeria a pena, e tornaria a bagagem mais pesada ainda, sabia bem disso, cuca fresca, pesos leves para carregar como se fosse pluma, para ser mais facil, menos penoso, e sentir o prazer de gozar quando o avião decolasse, simples assim, sem cerimônia, um corte reto.
Sentou num banco frio, sentiu-se pondo o rabo sobre um cadaver, um frio desgraçado que fez encolher, pequena circunferência, um café por favor, um não, dois, respondeu outra voz, quase familiar, não, era familiar mesmo, conhecia muitissimo bem, inclusive de sussurros em camas de motel.
Não seria possivel, estar ali, aquela hora, nem quis acreditar, pensou ser miragem do frio,a Sibéria também é um deserto, pensou.
Acha que vai evitar que eu vá embora? errou.
Não, nem penso isso, sei que não vai mudar sua opinião.
Bom saber, e por que veio?
Vou contigo.
Como vai comigo? Não quero você comigo, não quero você aqui, nem ali, ou lá, em lugar algum!
Mas vou e está decidido, olha aqui minha passagem, passaporte carimbado, há volta?
Não quero um rosto familiar ao lado para me fazer ter peso nas costas, me obrigar a prestar contas com minha maldita consciência.
Não estou aqui por isso, apenas vou, tenho mil motivos para não ficar aqui também, e você não é de longe o primeiro deles.
Poderia ir pra outro canto desse mundo, existem mil motivos seus e outros mil lugares pronde você poderia ir. Idiota.
Toma seu café e cale a boca, certo?
Como não ficar com raiva daquela situação, as malas já estavam pesando 100 vezes mais do que outrora, fechava os olhos e 5 segundos depois abria, crendo tratar-se de miragem, era porra nenhuma.
Ao menos vai sentar longe de mim, não é? Quando chegarmos lá nos separamos, nunca mais nos vemos e fim, só em esbarrões esparsos, bem por acaso num mercado ou na fila do cinema.
Não era isso que eu queria, acho que não consigo.
Como não? É bem facil, basta ir pro Norte, eu vou para o Sul. Naquela cidade Norte e Sul mal se cruzam.
Está certo, ainda faltam quatro horas, temos muita coisa para conversar até lá.
Posso começar com uma pergunta?
Pode.
Porque raios você teve de aparecer, hein?
Não sei, precisava disso, agora.
Não tem sentido, desculpa, não tem, tomo como pura provocação: abuso seu para me fazer remediar isso, não vou, ouviu? NÃO VOU!
Shh.. Fala baixo, já disse que não tive culpa, eu preciso de outros ares, de rostos estranhos, gente que não saiba meu nome, gente que não esteja preocupada com o que penso ou deixo de pensar, figurantes eternos entre os quais passarei sem notar.
Você quer mesmo tudo isso?
Sim, quero, essa terra é quente demais para mim.
Tenho que ir embora, você precisa ir.
Não vai comigo?
Não preciso mais.
Por que?
Me fez entender tudo.
Tudo o que?
Tudo, termina seu café e segue sua viagem.
Mas não quero ir...
E suas mil razões?
Esqueci quando sentei nessa droga de banco frio.
Verdade?
É, verdade.
Então voltemos para casa, quer algodão doce?
Adoraria...
Imagina se aquele avião cair.
Estaremos driblando a morte, não seria lindo isso?
Em verdade não acredito.
Porque?
Sei lá, é estranho, driblar a morte, coisa que a gente nunca vê.
Mas ela pode cruzar com a gente ali mesmo na esquina.
É, eu sei que pode.
E na esquina dois carros se chocam, passam e vêem um sorriso amistoso de uma simpática mulher que aponta para o céu.
Olha ali um avião que cai.
TRA-03:04-18/12/2006

2 comentários:

Anonymous disse...

texto cheio..

obrigada por n' ter esquecido..

obrigada mesmo pelos arranhoes..

Anonymous disse...

a tragicidade nunca te abandona? hahaha, gostei.
Meu pc ainda tá mal, coitado....

flornoasfalto

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