segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

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*Catapimbacaímos*

Descia as escadas correndo, morrendo de dor nas pernas, se perdendo, tropeçando, catapimbacaindo, catapimbacatando, catapimba, catapimba, catá.
Via morte chegando, 75 anos, as vertebras mal se aguentando, o corpo perdido no meio da sala, catapimbacaído.
Empregada viu, deu grito: SEU AFONSO!!
Testa sangrando, catapimbacaído que tava, não esboçava reação, tariamorto?
Vem de lá filho mais velho, jardineiro, mulher, genro, nora... Familia toda que era agregada.
Será que velho morreu? Disse o filho mais moço.
É claro que não! Disse o mais velho.
Acho que o velho morreu, disse o do meio.
Papai! Gritou a filha, caçula.
Carregaram, chamaram ambulância, que prontamente veio. Levou o velho desacordado.
Sirene tocando dizendo pros carros sairem da frente.
Chega desacordado, como saiu, e vai pra UTI.
Sua vida é marcada por pipis, não mais como era na juventude, passos de boleros.
Do lado de dentro lembrava de 1940, 9 anos, bricando de bola de meia com os amigos do quarteirão, levando a primeira topada, ouvindo e sentindo o primeiro catapimbacaindo, o primeiro catapimbacatando, os primeiros catapimbas da vida.
Viu em preto e branco a cena do sangue dos catapimbas, viu num prisma a lágrima descendo dos olhos,colorido, seu Newton carregando até em casa, avisando a mãe que tinha aprontado, levando tapas na bunda e chorando que nem retardado, com a perna sangrando.
Passou mais 11 anos, catapimbanavelha, logo após casar.
9 meses depois, catapimbanasceu filho mais velho, e outros catapimbanavelhas e outros catapimbanascendo, e ele: catapimbacaindo.
Abriu os olhos após lembrar de cada filho, viu todos ali, catapimbacaídos, não tão quanto ele, chegariam lá.
Sorriu.
Mas os dentes estavam num copo logo ao lado.
Beijaram sua a mão, ele sentiu os lábios de cada um, catapimbabeijando.
Após o beijo da caçula chegou na ponta da cama, olhou para a velha que tinha aquele mesmo olhar de 1951, do primeiro catapimbanela, mesmo sorriso, naquela época menos amarelado, somos como fotografia, ela já disse.
Pediu os dentes a velha.
Ela deu, ajeitou-os na boca.
Ele sorriu, e catapimbacaiu, da cama.
Todos entenderam que era assim, que a vida era sucessão de catapimbas, pessoas catapimbacaiam todo dia, e eles não deveriam esperar a hora deles catapimbacair, não, estavam muito ocupados: pensando na herança ou arranjando formas alquimicas para não envelhecer.
Catapimba.

TRA-02:31 11/12/2006



*Coveiro*

Cavo.
E me perguntam: pra que cavar?
Cavo.
E respondo: pra achar.
Cavo.
Retrucam: formigas e minhocas?
Cavo.
não, cadaveres.
Cavo.

TRA-02:43-10/12/2006

3 comentários:

nina disse...

hahaha, entendeu agora a diferença entre escrever e escrever literatura??

nina disse...

é engraçado que te ler me da vontade de atualizar, e uma vez vc comentou no meu que me ler te dava vontade de atualizar.
olha, simbiose poética.
=D

melodia disse...

simplesmente adoro!

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