
A menina morreu com furada de agulha, olhos abertos dizendo nada pro mundo.
Estatelada no parapeito do prédio, não pude deixar de ver, fui eu que encontrei o corpo... Bonita até, te digo.
Ouvi dizer que ela era atriz de cinema, tinha feito uma ponta em um filme do Al Pacino e tinha passado em uns dois testes pra ser a irmã do capanga do capanga do vilão do próximo filme do Stallone, teria duas falas. Inclusive seria crucial pro filme, se aceitasse passar uma noite com a equipe de produção, rejeitou.
O namorado parecia não ter entendido nada, olhou ela com o vestido azul que ele deu, foi o que disse, e dizia coisas sem sentido, como se aquilo servisse para fazê-la voltar: os filhos que vamos ter, casa de campo, felicidade, pudim de tapioca, leite da vaca, coisas assim.
Só ele que tinha aparecido, antes até do IML, que demoru a chegar. Disseram que tava um transito infernal e naquela mesma hora haviam acontecido uns oito acidentes de trânsito, um crash-boom. Pediram desculpas meio envergonhados pela dor do namorado, mas nem ficaram 5 minutos, levaram embora e só.
Emília, era esse o nome. Emília detestava chamar-se assim, tentou ser Michelle, mas não deixaram, e cá entre nós, eu que vi o corpo, ela tinha cara de Emília.
Engraçado que não lembro direito o que eu ia fazer no parapeito, era por volta de cinco da tarde, um dia 18 de Abril, acho que subi pra ver a rua, ver o sol indo dormir, algo assim... O que é que vim fazer mesmo?
Em minha mão um envelope, um livro do Cortazar: Todos os fogos o fogo, que eu não li...
Claro! Lembrei o que fui fazer ali. Fui me jogar, justamente isso.
Porque o livro do Cortazar? Porque eu queria morrer enigmático, aquelas coisas que sempre acontecem com alguém que se mata, de repente todo mundo acha que não o conhecia bem o bastante, e ficariam tentando decifrar onde raios aquele livro se encaixava na minha vida. Eu pensei em ser irônico: um pequeno príncipe ou um album do Asterix, talvez a Biblia, mas ia ser muito clichê, e mesmo sendo ateu, com Deus não se brinca, né? Pensei em um dicionário, aquele Houaiss enorme que pesa o dobro do meu peso, pensei em Huxley, Orwell, Amis e até em Ballard. Cogitei Jorge Amado, Ubaldo Ribeiro, Guimarães. Drummond ou qualquer poeta modernista soaria tipico demais. Sei que no fim, na dúvida, peguei o primeiro que vi pela frente, e saiu esse do Cortazar, mais pro lado e ia o Lovecraft, e aí seria macabro demais, até pruma morte, iriam me associar a alguma seita bizarra afim de ressusitar um deus monstro qualquer de tempos ancestrais, e eu seria o Ash...
Aí lá estava eu com o Todos os fogos o fogo na mão, e uma carta. Abri a carta pra lembrar o que tinha escrito, era um haicai do Leminski:
Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.
E isso tinha sentido, Amaranta entenderia, ela que me amava tanto saberia exatamente o que eu queria dizer, porque ela sabia esse de cor e tinha me ensinado. Um pedido de desculpas pra que ela lesse olhando o meu caixão entendendo tudo sem perceber.
Só que me apareceu a maldita Emília, a menina que morreu com furada de agulha e tirou toda a graça que caberia a mim, como se soubesse da liquidação e passasse correndo pra chegar primeiro, e chegou: a mardita marvada.
Porra, sete horas já, eu aqui pensando uma pá de coisa sem sentido, Amaranta deve estar me esperando pro jantar lá do outro lado do mundo, se ainda houvesse coragem de me jogar eu ia, viu? Juro que ia. Mas agora tá me dando uma fome...
tuiu



