O Vazio Cego do Medo da Luz do Lado Escuro

Ratos de biblioteca

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009



Marvada Mardita

A menina morreu com furada de agulha, olhos abertos dizendo nada pro mundo.
Estatelada no parapeito do prédio, não pude deixar de ver, fui eu que encontrei o corpo... Bonita até, te digo.
Ouvi dizer que ela era atriz de cinema, tinha feito uma ponta em um filme do Al Pacino e tinha passado em uns dois testes pra ser a irmã do capanga do capanga do vilão do próximo filme do Stallone, teria duas falas. Inclusive seria crucial pro filme, se aceitasse passar uma noite com a equipe de produção, rejeitou.
O namorado parecia não ter entendido nada, olhou ela com o vestido azul que ele deu, foi o que disse, e dizia coisas sem sentido, como se aquilo servisse para fazê-la voltar: os filhos que vamos ter, casa de campo, felicidade, pudim de tapioca, leite da vaca, coisas assim.
Só ele que tinha aparecido, antes até do IML, que demoru a chegar. Disseram que tava um transito infernal e naquela mesma hora haviam acontecido uns oito acidentes de trânsito, um crash-boom. Pediram desculpas meio envergonhados pela dor do namorado, mas nem ficaram 5 minutos, levaram embora e só.
Emília, era esse o nome. Emília detestava chamar-se assim, tentou ser Michelle, mas não deixaram, e cá entre nós, eu que vi o corpo, ela tinha cara de Emília.
Engraçado que não lembro direito o que eu ia fazer no parapeito, era por volta de cinco da tarde, um dia 18 de Abril, acho que subi pra ver a rua, ver o sol indo dormir, algo assim... O que é que vim fazer mesmo?
Em minha mão um envelope, um livro do Cortazar: Todos os fogos o fogo, que eu não li...
Claro! Lembrei o que fui fazer ali. Fui me jogar, justamente isso.
Porque o livro do Cortazar? Porque eu queria morrer enigmático, aquelas coisas que sempre acontecem com alguém que se mata, de repente todo mundo acha que não o conhecia bem o bastante, e ficariam tentando decifrar onde raios aquele livro se encaixava na minha vida. Eu pensei em ser irônico: um pequeno príncipe ou um album do Asterix, talvez a Biblia, mas ia ser muito clichê, e mesmo sendo ateu, com Deus não se brinca, né? Pensei em um dicionário, aquele Houaiss enorme que pesa o dobro do meu peso, pensei em Huxley, Orwell, Amis e até em Ballard. Cogitei Jorge Amado, Ubaldo Ribeiro, Guimarães. Drummond ou qualquer poeta modernista soaria tipico demais. Sei que no fim, na dúvida, peguei o primeiro que vi pela frente, e saiu esse do Cortazar, mais pro lado e ia o Lovecraft, e aí seria macabro demais, até pruma morte, iriam me associar a alguma seita bizarra afim de ressusitar um deus monstro qualquer de tempos ancestrais, e eu seria o Ash...
Aí lá estava eu com o Todos os fogos o fogo na mão, e uma carta. Abri a carta pra lembrar o que tinha escrito, era um haicai do Leminski:

Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno.

E isso tinha sentido, Amaranta entenderia, ela que me amava tanto saberia exatamente o que eu queria dizer, porque ela sabia esse de cor e tinha me ensinado. Um pedido de desculpas pra que ela lesse olhando o meu caixão entendendo tudo sem perceber.
Só que me apareceu a maldita Emília, a menina que morreu com furada de agulha e tirou toda a graça que caberia a mim, como se soubesse da liquidação e passasse correndo pra chegar primeiro, e chegou: a mardita marvada.
Porra, sete horas já, eu aqui pensando uma pá de coisa sem sentido, Amaranta deve estar me esperando pro jantar lá do outro lado do mundo, se ainda houvesse coragem de me jogar eu ia, viu? Juro que ia. Mas agora tá me dando uma fome...

tuiu

"Que dá medo do medo que dá..."(L.)

Medo.

Tenho medo de perder a cabeça
Me conhecer melhor
Me olhar nos olhos e achar que não caibo mais em mim

Tenho medo de ser mais teu do que meu
De achar que algum dia nada vai dar certo de verdade
E que de verdade nada dê certo

Tenho medo de ser o herói da história
De ser o vilão também
Medo de escuro de gente que dorme de luz apagada

Tenho medo da vergonha que sinto as vezes
Do silêncio que não diz nada em eterno suspense
Do teu silêncio, em eterno suspense

Tenho medo do meu sorriso franco de filme terror
Da minha barriga de chopp e pizza
Do meu peculiar humor peculiar

Tenho medo de esquecer o dia de amanhã e viver sempre ontem
Medo de ter medo de um monte de coisa que nem sei
Medo de te dizer meu nome e de perguntar como vai

Tenho medo de você
Medo de não ter medo quando era preu ter
Medo do medo que dá

Tenho medo por fim de desaprender a escrever
De não saber mais escrever com o coração
De não viver poesia

Tenho medo de mentir e dizer que tenho medo por fim
Medo de chegar a ultima linha
Medo de chegar ao ultimo medo

Tenho medo
Medo de não ter mais
Medo

tuiu

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Depois de Oz - A Autobiografia do espantalho

Eu devia ter entendido melhor o modo como você me explicava o jeito que o mundo rebola. Cego que fui durante um bom tempo, não sabia te olhar direito: do jeito que você me olhava. Aí um dia eu vi, e mais que isso: entendi, você queria rebolar para mim, e era assim que você funcionava.
Mas me diga, de que valia deixar de ser cego, se quando eu era cego eu não aprendi a tocar o mundo com as mãos?
Novamente, com toda a paciência do mundo, que só o amor dá, você me deixou tocar o mundo através de você, beijar o mundo através de seus lábios, sentir de verdade onde a vida se alimentava...
Mas aí então não tive paciência pra ser eu mesmo, ou compreender o jeito que você rebolava, e te abraçar parecia estranho, um gesto desesperado pra me segurar às coisas com medo de que a cegueira voltasse, e por pura ironia, bem peculiar àqueles que sofrem de estupidez, fiquei cego novamente, e dessa vez, certa você estava, não havia mais onde segurar, não havia o que tocar, não havia o que ler no mundo com as mãos, e ainda assim, toda vez que se aproximava, como se tivesse saido do banho ainda coberta de sabão, você escapava.
E aí eu deixei pra lá, e saí me arrastando por aí, comecei a ver vultos, só coisas grandes, que também se arrastavam, e achei que tava vendo de novo, vicio de quem tem miopia aguda. Toda vez que eu achava que podia tocar, que era hora de ver o mundo novamente, havia o nada, simplesmente o nada se evanescendo em minhas mãos...
Daí o resto não preciso contar, né? Fui me atirando nas sombras borradas, que nunca estavam lá, e fui me esborrachando, pensando que tinha aprendido a rebolar como você fazia...
Aqui estou quebrado, tentando juntar dia a dia cacos de mim que se espalham pelo meu quarto enquanto eu durmo, mas quando eu penso ter consertado um lado, o outro se quebra, e assim por diante. Nessas horas penso que não valho coisa alguma, que é o estopim para eu definitivamente desistir de mim, mas como fazer, se você não desiste?
O espantalho desengoçado --que não pede um cerebro, muito menos um coração, pois já os tem, e na verdade só quer a oportunidade de voltar a Oz para ver se ficou por lá o manual de instruções, porque ainda não aprendeu a usa-los juntos direito-- tenta entender porque, o tempo inteiro, o mundo acredita nele mais do que ele mesmo, e quantas vezes serão necessárias para ele entender quem ele é realmente, que sua cegueira não é doença, mas um maldito vicio de surdez: ele sabe do que precisa, mas não consegue ouvir a si mesmo...

tuiu

sábado, 21 de novembro de 2009



"De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão,
esperando e querendo
que eu seja um herói,
que eu seja um herói.

Mas eu sou inocente,
eu sou inocente,
eu sou inocente.

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando e querendo
que eu saiba.

Mas eu não sei de nada,
eu não sei de ná,
eu não sei de ná.

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando e querendo apanhar,
querendo que eu bata,
querendo que eu seja um Deus.
Mas eu não tenho chicote,
eu não tenho chicó,
eu não tenho chicó.

Mas eu sou até fraco,
eu sou até frá,
eu sou até frá."

(Todos os Olhos - Tom Zé)


Domentário ou Fulano Quem?

Sou um maldito fracasso em noite nua,o anti-herói que nem sabe porque raios inventaram de colocar na história.
Tenho uma cara qualquer, daquelas que sempre passam despercebidas, e pra mim é quase uma benção saber que muitos não lembram de mim. É fulano. Fulano quem?
Daí meio que me apelidei de Fulano Quem. Muito prazer.
Não tente decorar meu rosto, você esquecerá dele nos próximos cinco minutos após eu te contar uma porção de coisas sem nexo, só pra te afastar e eu achar que sou um fracasso, mas não um fracasso qualquer, um BELO fracasso.
Sou artista, escrevo coisas, digo coisas, invento coisas, arte é isso, não é? Coisas que a gente diz, inventa, escreve... Vem tudo do pulmão, percebe? Por isso sai tudo meio mastigado, faltando pedaço, de jeito estranho. Agradeço ao excesso de cigarros.
Eu tive várias namoradas, mas não fui namorado de nenhuma. Elas tão por aí, rabiscadas nas paredes, pintadas em telas abstratas que só tiveram sentido uma vez na vida: quando as pintei num porre de cachaça.
Ah, vá não, pô! Agora que tá ficando interessante, que vou mostrar minhas cicatrizes na cabeça... Olha, olha, olha. Aqui, aqui, aqui ó. Tudo porrada de mulher, porque acharam que as tratei mal, será verdade?
Ah, nem todas, essa aqui foi quando caí do quinto. Tá, uma mulher me empurrou, e nem doeu tanto. Peguei um guardanapo e fiz isso, é arte, coisa linda, não?
Tá, pode ir, já pode ir, não falo mais.
Não disse que era pra ir? Quer que eu fale da camisa? Não, não conheço o cara. Ele fugiu com Judith, minha ultima, como é que falam por aí? Peguete. Nome engraçado esse: peguete. Ei, moça: quer ser minha peguete? Só hoje, a gente dorme de conchinha que nem casalzinho virgem.
Passo os dias sentado aqui, acham que sou louco, que fico na rua, aí me dão sopa, dinheiro, essas coisas. Mas moro ali no quinto, todo mundo me odeia no prédio, mas ninguém diz nada porque tem medo, inventaram uma história -tá, fui eu- de que eu tinha matado uns aí nas bandas de Mata de São João, mas não encontraram vestigio. Judith as vezes passa aqui, fica ali ó: do outro lado da calçada me olhando com um olhar de pena, e a barriga crescendo. Acho que ela conversa até com a barriga me olhando, ela acha que o filho é meu, mas pode ser de qualquer um. Eu disse isso pra ela: Judith, você é minha peguete, pode de ser de qualquer um. Ela chorou, e aí fugiu com o outro lá, esse da camisa. Mas acho que ela era só peguete dele também, e aí ele fugiu da barriga. Quando ela tenta conversar finjo de doido, e aí todo mundo olha estranho pra ela. Moça de familia, formada em artes-plásticas, riquinha do corredor da Vitória. Disse que largou tudo por mim, mas que pessoa é idiota o bastante pra largar tudo por causa de um fracasso? Eu não apostaria um centavo em mim, e tenho dito.
Não, não quero mais conversa não. Cês ficam só aí me filmando, perguntando coisa, e não sei o quê... Porra, sou palhaço não.
Pra não dizer que sou ruim, tó aí uma arte pra vocês, é de rodar, tá vendo? Deixa tonto.
Vai pra casa e enfia essa fita no...

tuiu




quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Da Maior Importância

(Caetano Veloso)

Int.: 
Foi um pequeno momento, um jeito, uma coisa assim

Era um movimento que aí você não pode mais

Gostar de mim, direito

Teria sido na praia o medo

Vai ser um erro, uma palavra, a palavra errada

Nada, nada, basta quase nada

E eu já quase não gosto

E já nem gosto do modo que de repente

Você foi olhada por nós

Porque eu sou tímido e teve um negócio

De você perguntar o meu signo quando não havia signo nenhum

Escorpião, sagitário, não sei que lá

Ficou um papo de otário, um papo, ia sendo bom

É tão difícil, tão simples, é tão difícil, tão fácil

De repente ser uma coisa tão grande da maior importância

Deve haver uma transa qualquer pra você, e pra mim

Entre nós

E você jogando fora e agora, vai embora, vá!

Deve haver um jeito qualquer, uma hora!

Há sempre um homem pra uma mulher

Há dez mulheres para cada um

Uma mulher é sempre uma mulher etc., tal

Assim como existe disco voador e o escuro do futuro

Pode haver o que está dependendo

De um pequeno momento puro de amor

Mas você não teve pique e agora

Não sou eu quem vai lhe dizer que fique

Mas você não teve pique, não sou eu quem vai

Lhe dizer que fique...

Mas você não teve pique

Não sou eu quem vai

Lhe dizer que fique

Não sou eu quem vai

Você não teve pique

Não sou eu quem vai

Lhe dizer que fique

Não sou eu quem vai

Mas você não teve pique

Não sou eu quem vai

Lhe dizer que fique

Não sou eu quem vai

Lhe dizer que fique

Não sou eu quem vai

Mas você não teve pique

Não sou eu quem vai
"Sua voz atroz me atrai, me leva ao inferno -- que é logo ali-- me trai..."

domingo, 1 de novembro de 2009

Versos psicografados no recital...

"sede livre e leve à glória o logro de tua liberdade..."
"A jocosa força do homem moderno criando o inferno da própria cintura, diz meu Deus: pra que tanta bruta força, pra que tanta força bruta?"