Dizem que preciso pensar... Para isso me entupo de calmantes, o bastante pra derrubar um cavalo? Não, um haras inteiro.
Combino com café amargo, forte ao extremo, dói quando passa na garganta, mas desce, sempre desce.
Me acham um gênio quando me veem roendo as dobras de um livro de filosofia, babam em mim quando falo de Foucault como se fossemos íntimos, rirem e dão tapinhas nas costas quando digo que dia desses chamo Nietzsche pra jantar. Riem orgulhosos.
Doloroso pra eles seria imaginar que eu poderia ser mais saudável, menos viciado -e vicioso- se não precisa me acabar sobre os livros, me entupindo de café amargo, me abobalhando com tranquilizantes.
As vezes penso que ter fé talvez não seja estúpido... As vezes acredito em Deus, na surdina, meio ressabiado com medo dos olhares dos amigos filósofos que sabem mais do que eu, e repetem mil vezes: DEUS NÃO EXISTE.
Todo esse desabafo surge justamente quando sei que só me restam 15 minutos, eis aí toda a eternidade.
Não consigo esboçar um gesto, de comprimido em comprimido se foi um frasco inteiro, a tarja preta da caixa cresce em minhas vistas, e vai tomando conta de tudo que sei, um enorme branco negro que me faz esquecer das palavras. Que me faz ver o quão estúpidos são os livros, incapazes de me salvar numa hora dessas... Cadê a sabedoria toda da humanidade? Vai comigo assim que eu fechar os olhos e não respirar...
Mil necropsias não conseguiram rever a causa mortis: morto por pens...
tuiu







