quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Da série: só para constar...

*VIIXIIVIIV*

Eu vivo no através, no mundo que não tem sombras ou panos brancos.
Tua janela não me alcança sempre, eu avanço, na surdina, sob armas, sob verbos, sob a própria inocência, e há?
Fecho os olhos como quem não quer ou não vê nada, e minto, porque reflito e conjuro outros corpos do através, outros iguais a mim na maneira de abrir e fechar os olhos.
Fingimos aceitar seu simbolo, travestido de verdade, e em verdade me reprimo com a tua, mas sei que quero, de vez em quando, vez ou outra, me desligar: e busco a outra América de pele rosa e corpo gordo. Mas não digo que me desligo do lado de lá, parece vergonhoso e não cabe em mim, sei, muita coisa não cabe em mim, mas cabe, porque cabe, eu sei, engulo, digo.
Você enerva-se, enputa-se até, porque sempre escapo ao seu olhar largo, nas beiradas, me esgueirando, escapando, deslizando; e você perdendo, enervando-se, eputando-se, com raiva desgraçada de mim, porque eu escapo, maldito ser traiçoeiro, metido e esgueirado nestes cantos dificeis de alcançar onde não corre o rastro da piaçava, onde tua língua porosa se alarga, como nalguns cantos de sua mulher, ou do teu macho.
Se tiver calma, te aviso, de amigo, como sou, pisco o esquerdo, te aviso: há momentos em que eu fico mais brilhante e quente que o sol, basta olhar tua nuca, com calma, como disse, promete que faz? Queria as vezes teus olhos largos em cima de mim, confesso, como fetiche, como o desejo obsessivo de exibicionista sob os olhos de um voyeur.
Sabe que penso as vezes? Que talvez seja amor, e eu me escondo acanhado de apaixonado que sou, estou, quem sabe?
Não nego que dá prazer, correr com uma faca prestes a te cortar a espinha, torna-lo em dois, meu eu-metade, meu eu-pedaço, sorrindo querendo mais, que venha Jack: o estripador, pura lascivia.
Paro, vergonha.
Agora me permitirei prazer de fuga novamente, deixar de leve a navalha marcar minhas costas, morder os lábios de gozo, deixar meu rastro em dupla hélice no chão, quem sabe assim você me ache? Sentindo meu gosto, lambendo meu cheiro...
Quero, mais do que tudo, agora, teus olhos largos sobre mim, mas não me toque, porque não pode, ninguém pode, se quer: me alcance, duvido, eu vivo no através.

TRA-07/12/06


*Ponta boa é a que sangra*

Seria completamente inútil achar que as respostas viriam de maneira fácil, que bastaria uma olhada para que ela aparecesse nua e simples, num estralar de dedos, ou piscar de olhos, como preferir.
Fingia querer saber o preço do jornal, enquanto folheava as revistas de mulher-pelada, e ao mesmo tempo tentava entender um pouco sobre a geopolitica do Iraque e o que acontecia ali na esquina, a história do homem sem nome assassinado. Terminou vazio, como sempre, e saiu de mãos abandando, olhando envergonhado para o chão, que muito bem encerado refletia aquela cara estúpida de quem tem que voltar ao trabalho largando uma prazerosa hora de almoço com fome.
Apontar lápis era seu trabalho, coisa para profissionais gabaritados, trabalho braçal de última linha, invejado por metade dos funcionários da sala, ficavam lá ele e as vezes seu Josias, que tratava de contar quanto de cada coisa tinha saido e entrado. Puxava papo as vezes, mas seu Josias era do tipo calado que só abre a boca para dizer: sim, não e bom dia.
O dedo indicador da mão direita possuía já bolha de sangue na ponta, de tanto furar para sentir se tinha apontado direito, ponta boa é a que sangra, tinha como leva escrito no fundo da gaveta, se alguém visse estava demitido, mente de criminoso sem solução.
E não é que prejudicou? Um rapazinho, boy, do quinto andar, tinha furado o olho do chefe, sangrou muito, eternamente ficou o rastro escarlate da sala pro elevador. Procuraram saber porque apontava tão fina a ponta, porque motivo transformava objetos escolares em armas. Calou-se, não sabia responder, mentalizou o lema: ponta boa é a que sangra.
Seu Josias viu tudo de canto de olho ,ele que nunca falava coisa alguma que não fosse: sim, não e bom dia,e disse: Olha na gaveta, tem coisa escrita.
E acharam: ponta boa é a que sangra.
Demitido, justa causa, ameaçado de processo criminal, mas não tinha feito nada, só transformado objetos escolares em armas.
Como era de se imaginar, passou para o mundo do crime: o maníaco da ponta fina, atacava transeuntes incautos com um furo certeiro no meio do globo ocular, nem rastro deixava, caso de segurança pública, quem não teve medo levante a mão, eu tive.
Um boom nas óticas e afins, todos usando óculos, rarissimo ver quem ousasse andar sem proteção.
Mas foi num domingo, lembro até do plantão, que prenderam o rapaz, atacou um velho com olho de vidro, caiu atônito sem reação, dois que passavam no local trataram de ajudar a prende-lo, pronto, mais um na cadeia.
Meses depois decretaram uma lei proibindo a venda de objetos com ponta e apontadores, não deu certo, formou-se um mercado negro de objetos pontiagudos e apontadores, o governo obrigou então as pessoas que por acaso quisessem ou precisassem escrever com lápis e variantes a realizar psicoteste e teste habilitação, concedendo o direito de usar uma carteirinha com foto afirmando que fulano tinha direito de portar lápis e apontador, ser escritor a mão virou profissão perigosa, tinham medo de um desses caras loucos que escreve endoidecer como uma personagem qualquer e sair revivendo o terror de tempos atrás, daí chegou a maquina de escrever, e o computador, deixando os lápis quase fora de moda, mas pra aprender a escrever ainda é necessário sentir a ponta, sem sangue, ponta boa é a que escreve, tá na bandeira, obrigação de mostrar-se como ideal.
Cá entre nós, acho mais bonito o lema do rapaz, que no fundo ninguém sabe se existiu, todo mundo disse que viu, quando eu nasci já era assim, só estou contando o que sei, o que não lembro bem inventei um pouco, por essas mentirinhas me desculpo, mas não faz diferença não, para nossa segurança, escrevo no computador, mas ponta boa é a que sangra, quando escrevo até gosto, é bom uma pitadinha de vermelho, só pra avivar.

TRA-01:05-20/12/2006

3 comentários:

Anonymous disse...

ver, ler, refletir
certamente o farei
querido guitarrista oswaldino
auheuhae
bj

Anonymous disse...

nossa nem reconheci esse anonimo
(bonequinho verde dançante do msn)

tangerine disse...

perdi de ano, guto.
0o
por miseros décimos em matematica.
ninguem quis me aproximar.
¬¬
well well welly...é a vida.
tvz seja um sinal de deus me mandando te devolver seus livros.
0o
mas vou fzer cpa em março, etc e tal.
=D
vá me ler, vá.
tô com crises, nao consigo escrever, só desenhar coisas doidas com crayon.
0o

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