sábado, 2 de junho de 2007

"Menina, quero fazer contigo outra menina igual a você Que carregue um pouquinho de mim também. Para deixar no mundo nosso amor mais bonito..."(TR)

Meus Sinais

Era um sorriso lindo, não pude me conter e perguntei se tinha um nome, que me disse prontamente.
A coisa mais linda do mundo já havia sido nomeada, eu não tinha sido o primeiro a ver, mas era como se fosse, como se eu tivesse descoberto o paraiso, aquele que estava na esquadra de Cabral e disse pela primeira vez: Terra a vista! Mas eu falei baixinho, murmurei na língua das formigas com o canto da boca.
...
Ela dançava comigo de jeito diferente, não, ninguém dançava como ela, ninguém; tava pra nascer melhor. O salão parecia ficar vazio, todos sentados nas cadeiras a admirar as cadeiras dela, e eu com ela tentando acompanhar que nem um idiota em camera lenta.
Me olhava nos olhos, o mundo em slow... Ela sabia mexer com o tempo.
...
A menina de 4 anos tinha os olhos iguaizinhos aos dela e os cabelos negros também, outra flor em casa, com o nome de Margarida. Eu admirava as duas na cozinha, iguazinhas, parecendo duas irmãs. Margarida tinha os mesmos sinais que eu, e apela amarelada também, que nem a minha. Sorte dela que era irmã gêmea da mãe,tão perfeita quanto.
...
18 anos, Margarida e a mãe ainda trocam confidências que eu nunca sei por completo; pinto as duas cochichando deitadas na cama, o sol entrando pela janela deixando as pernas reluzentes; eu querendo as duas todinhas para mim, sem concessões.
Eulália diz que tenho sentimento de posse pela menina, eu digo que não, que quero preservar a perfeição da menina que a mãe nunca perdeu porque eu cuidei bem.
...
Margarida me disse que Otávio queria me conhecer, porque iriam viajar para o interior; menino hippie, pensei. Porque não cortava a barba e o cabelo? Tomava banho, hein?
21 anos é nova demais para sair assim, não pode, filha. O que sua mãe pensa disso?
Eulália disse que com a gente foi igualzinho, ela tinha 19.
Não pude ter raiva, ensinei Margarida a ser livre como a mãe.
Larguei uma lágrima teimosa que escorreu e molhou um jornal que forrava o chão.
Filha, disse com voz embargada, se não der certo volta, tá bom? Estarei aqui sempre, de portas abertas.
Ela me abraçou quente, nunca tinha sentido um abraço assim dela antes.
Otávio sorriu do mesmo jeito que sorri há 23 anos atrás.
Depois dos dois irem embora, Eulália dançou comigo outra vez; noite inesquecivel, chama acesa. ...
Margarida liga sempre, me conta das coisas em Londres, das viagens que faz cantando pela Europa, me convida sempre, eu nunca que vou, não consigo tirar o pé dessa terra quente, me desculpo e fico esperando virem pra cá, com o Guilherme e a Dalva. Dizem que o menino é a minha cara, vi nas fotos mas não achei parecido não, só os sinais, iguais aos de Margarida...

Túlio Rey

Um comentário:

clari disse...

margarina
margarida
sol...
td um trocadilho...

Licença Creative Commons
O trabalho O Vazio Cego do Medo da Luz do Lado Escuro de Túlio D'El-Rey Almeida foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em ovaziocego.blogspot.com.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em http://ovaziocego.blogspot.com.