Imagem por Christine Zachman chamada In the Morgue*Autofagia ou sem título*
E eu? Só vou praí morto.
Desligou o telefone logo em seguida.
Sentia-se muito mal, o estomago pedindo pra sair pela boca, pedindo não, se empurrando pra cima com força, sentia o coração pedindo arrego... Ritmo desacelerado, as pernas tremem muito.
Estava com medo de voltar para casa, em tom confessional disse: eles não vão entender, enquanto um pouco de sangue escorria pelo canto da boca.
Ali, no meio de tanta gente, com tantas luzes, com bons costumes, com gente bonita de cabelo alisado, ali era o fim do mundo, aquele ar pesado, aquelas nuvens preta saindo dos carros, aquele chão preto com cheiro forte, aqui é lugar de morte.
Queria a mãe ali do lado, fazendo chá, dando cafuné, consolando, mas o orgulho e a vergonha os suprimiam ali, naquela rodoviaria imunda onde morava já tinham 2 meses. Era tudo culpa dos ratos...
Sua pele foi ficando com um escuro feio, de doença, de coisa podre. Seus cabelos foram caindo, caindo doendo, não caiam que nem cabelo de gente, os dentes sangravam, a língua cheia de brotoeja, aí veio a falta de comer, o mijo saindo apertado, meio roxo de vez enquanto, ou preto, as fezes ficando duras que nem pedra, da cor de pedra, cheirando a pedra do inferno.
Era o diabo, o homem que grita com biblia na mão disse que eu era o diabo, queria me queimar.
Minha mãe sabe que não sou... Saí do ventre dela, se não fosse legitimado, filho de qualquer um, mas não, era filho de minha mãe, não podia ser errado, lá ele.
E coração palpitava com fúria, estomago querendo sair pela boca, arrepiou: sentiu sangue percorrer a espinha até escorrer pelo reto... que seja minha punição, que seja, mereço mesmo ser excomungado, que minha mãe não saiba, que pense que sumi, que casei com qualquer uma e tomei rastro da estrada, sem nome, sem dinheiro, sem roupa e sem sapato, só com radinho de pinha pra não perder noticia e panela pra esquentar comida.
Se aproximava um de calça jeans, cabelos desgrenhados, barba não feita, jeito desnorteado, ébrio feito um bêbado...
E dói aonde?
É tudo, até fio de cabelo...
Toma isso aqui e toma.
E pra que serve?
Toma.
O rapaz é santo?
Toma essa porra e não pergunta nada, diabo.
Sem solução, estrupiado, convertendo-se num aglomerado disforme de carne, tomou.
E foi embora.
O rapaz é santo. Dor sumiu.
Volto pra minha mãe agora? Volto sim, volto pra elagora.
Se arrastou um pouco até o ponto próximo, ia voltar. Sentou esperando com parcimônia...
Vou voltar.
Até sentir do forte...
Será o Benedito? Que é que vem agora?
Dor forte, corpo voltando a ficar febril, coração palpitando...
Que é vem agor...?
Eram quilos de carne disforme descendo pela boca.
Olhos estufados, estupefatos com a própria tragédia...
-IML 7 horas-
Qual é a história desse?
Se comeu vivo, não guentou e cuspiu pra fora.
É a cara do Diabo, vai tarde.
23:31 18/11/2006
Vale a pena ouvir: The Magic Numbers...

Nenhum comentário:
Postar um comentário