terça-feira, 7 de novembro de 2006

"In the fields bodies burning/ as the war machine keeps turning"(BS)


Imagem por shamanski


"Um dia os santos foram homens e não tiveram forças para subir escadas."

Desvendou-se entre as cortinas o mundo que ela desejava agarrar e enfiar numa caixinha no canto do quarto, pois é, admitiu com ar de rainha de copas.
Dormiu sonhando com o rapazinho da escola que nunca olhava para ela, mas ela sabia que olhava.
Anotou num papelzinho rosado o nome dele sete vezes, pra não esquecer, e pos junto do coração, é pra dormir contigo, falou.
Rezou pai nosso, pediu a papai do céu, uma boa noite e um ótimo dia por vir, fechou os olhinhos, verificou se o papel estava junto do peito, e sonhou com o rapazinho da escola.
Acordou com o sorriso de sempre no rosto, mas com o olhar fechado, claridade que mata toupeira.
Passos leves, ladrilho por ladrilho até a escola, desenhava no chão o céu, estavam ali:lua, sol, estrelas e chão. Sem chão não tem céu, dizia.
Encontrou o rapazinho que nunca olhava pra ela, mas ele olha, eu sei, repetia baixinho.
Bom dia pra professora, escrevia no caderno o nome dele sete vezes pra não esquecer, e colocava dentro da lancheira.
Queria dizer que fim de semana não poderemos sair de casa, o mundo está em guerra, seu pai precisa ir, mas volta, juro que volto, disse o pai.
Ela chorou.
Fechou todas as cortinas, tinha medo de ver pela janela o pai morto, sabia o que era guerra, aprendeu na escola, mas achava que não tinha mais.
Mãe, porque brigam os homens?
Porque eles não choram, respondeu com pesar a mãe enquanto olhava as fotos do casamento.
Ao longe era possível ouvir as dores dos homens no outro lado do mundo, ela dizia que não dava pra dormir com tanto grito, agarrava-se a mãe fechando os olhos rezando pelo pai e pelo rapazinho que nunca olhava para ela, mas olhava.
Até que uma carta chega, amarelada, com cheiro de fumaça e polvora, fazendo a mãe chorar, fazendo a mãe se trancar no quarto o dia quase inteiro, fazendo ela chorar também, fazendo querer ficar pequena pra caber numa caixinha e se guardar no canto do quarto... Ela sabia que o pai não voltava mais, que papai do céu tinha esquecido dela, que rezava e rezava sete vezes pelo pai e pelo rapazinho da escola.
A mãe saiu do quarto com a cara enxada, olhos vermelhissimos, tremendo-se toda, olhou para filha palida, pronunciou três palavras: te amo filha, se abraçaram.
A casa inteira se pintou de cinza, prometeu a si mesma nunca mais abrir as cortinas, não precisava mais ver o mundo dos homens que não choram: sujo de sangue e preto de fumaça.
Resolveu esquecer até do rapazinho da escola, ele era homem, possívelmente não sabia chorar também, cedo ou tarde pintaria tudo de cinza, encheria o mundo de fumaça e sujaria tudo de sangue.
Devotou-se aos livros, entender o porque das coisas, a pesquisar por que diabos os homens não choravam e porque tinham que resolver coisas simples com guerra, não podiam simplesmente dividir dinheiro, dividas, comida, fome, sede e agua,como eles dizem acreditar?
A luz doia nos olhos, matava toupeira, não queria mais sair de casa, estudava uma tecnica alquimista para reduzir-se ao tamanho duma formiga para poder trancar-se numa caixa no canto do quarto com a mãe, que dia após dia morria, porque de tanto chorar já esquecia das lagrimas e ia ficando como os homens do mundo la fora que levaram seu pai.
Até o dia em que já não era menina, mas mulher pronta para amamentar e carregar homens no ventre, percebeu que sua mãe tinha poucos dias de vida, que já tossia sangue, e os cabelos outrora escuros ficavam pouco a pouco cinzas, e que por mais que lesse e estudasse e buscasse e aprendesse, não poderia reduzir-se a uma formiga para caber numa caixa, e com a mãe quase morta deitada na sala, proferiu as ultimas palavras: mãe, quero abrir a porta.
Pôs a mão na maçaneta, girou-a, um rangido chato ecoou pela casa, a claridade entrava para cega-la, mas ela percebeu num milésimo de segundo ao ver ao longe o mundo dos homens que roubou seu pai, que não havia mais nada para se ver, que tudo ao redor era o nada, o vazio cinza, o vazio cego, rastros de polvora, sangue e fumaça.
Suas lágrimas cairam para purificar o mundo que a matara, e no chão, no meio de toda aquele solidão vestida de morte, sobrava uma formiga, carregando um cristal de açucar.

TRA-00:15-7/11/2006

3 comentários:

tangerine disse...

lindo.

[uma antropóloga em marte] disse...

estava com saudade de ler suas coisas... e cada vez que leio me apaixono mais e mais por suas letras!
beijoka tulio...

[uma antropóloga em marte] disse...

simplesmente amei, demais esse texto!! Tinha que repetir isso...
rsrs

Licença Creative Commons
O trabalho O Vazio Cego do Medo da Luz do Lado Escuro de Túlio D'El-Rey Almeida foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em ovaziocego.blogspot.com.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em http://ovaziocego.blogspot.com.