Eu devia ter entendido melhor o modo como você me explicava o jeito que o mundo rebola. Cego que fui durante um bom tempo, não sabia te olhar direito: do jeito que você me olhava. Aí um dia eu vi, e mais que isso: entendi, você queria rebolar para mim, e era assim que você funcionava.Mas me diga, de que valia deixar de ser cego, se quando eu era cego eu não aprendi a tocar o mundo com as mãos?
Novamente, com toda a paciência do mundo, que só o amor dá, você me deixou tocar o mundo através de você, beijar o mundo através de seus lábios, sentir de verdade onde a vida se alimentava...
Mas aí então não tive paciência pra ser eu mesmo, ou compreender o jeito que você rebolava, e te abraçar parecia estranho, um gesto desesperado pra me segurar às coisas com medo de que a cegueira voltasse, e por pura ironia, bem peculiar àqueles que sofrem de estupidez, fiquei cego novamente, e dessa vez, certa você estava, não havia mais onde segurar, não havia o que tocar, não havia o que ler no mundo com as mãos, e ainda assim, toda vez que se aproximava, como se tivesse saido do banho ainda coberta de sabão, você escapava.
E aí eu deixei pra lá, e saí me arrastando por aí, comecei a ver vultos, só coisas grandes, que também se arrastavam, e achei que tava vendo de novo, vicio de quem tem miopia aguda. Toda vez que eu achava que podia tocar, que era hora de ver o mundo novamente, havia o nada, simplesmente o nada se evanescendo em minhas mãos...
Daí o resto não preciso contar, né? Fui me atirando nas sombras borradas, que nunca estavam lá, e fui me esborrachando, pensando que tinha aprendido a rebolar como você fazia...
Aqui estou quebrado, tentando juntar dia a dia cacos de mim que se espalham pelo meu quarto enquanto eu durmo, mas quando eu penso ter consertado um lado, o outro se quebra, e assim por diante. Nessas horas penso que não valho coisa alguma, que é o estopim para eu definitivamente desistir de mim, mas como fazer, se você não desiste?
O espantalho desengoçado --que não pede um cerebro, muito menos um coração, pois já os tem, e na verdade só quer a oportunidade de voltar a Oz para ver se ficou por lá o manual de instruções, porque ainda não aprendeu a usa-los juntos direito-- tenta entender porque, o tempo inteiro, o mundo acredita nele mais do que ele mesmo, e quantas vezes serão necessárias para ele entender quem ele é realmente, que sua cegueira não é doença, mas um maldito vicio de surdez: ele sabe do que precisa, mas não consegue ouvir a si mesmo...
tuiu

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