sábado, 21 de novembro de 2009



"De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão,
esperando e querendo
que eu seja um herói,
que eu seja um herói.

Mas eu sou inocente,
eu sou inocente,
eu sou inocente.

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando e querendo
que eu saiba.

Mas eu não sei de nada,
eu não sei de ná,
eu não sei de ná.

De vez em quando
todos os olhos se voltam pra mim,
de lá do fundo da escuridão
esperando e querendo apanhar,
querendo que eu bata,
querendo que eu seja um Deus.
Mas eu não tenho chicote,
eu não tenho chicó,
eu não tenho chicó.

Mas eu sou até fraco,
eu sou até frá,
eu sou até frá."

(Todos os Olhos - Tom Zé)


Domentário ou Fulano Quem?

Sou um maldito fracasso em noite nua,o anti-herói que nem sabe porque raios inventaram de colocar na história.
Tenho uma cara qualquer, daquelas que sempre passam despercebidas, e pra mim é quase uma benção saber que muitos não lembram de mim. É fulano. Fulano quem?
Daí meio que me apelidei de Fulano Quem. Muito prazer.
Não tente decorar meu rosto, você esquecerá dele nos próximos cinco minutos após eu te contar uma porção de coisas sem nexo, só pra te afastar e eu achar que sou um fracasso, mas não um fracasso qualquer, um BELO fracasso.
Sou artista, escrevo coisas, digo coisas, invento coisas, arte é isso, não é? Coisas que a gente diz, inventa, escreve... Vem tudo do pulmão, percebe? Por isso sai tudo meio mastigado, faltando pedaço, de jeito estranho. Agradeço ao excesso de cigarros.
Eu tive várias namoradas, mas não fui namorado de nenhuma. Elas tão por aí, rabiscadas nas paredes, pintadas em telas abstratas que só tiveram sentido uma vez na vida: quando as pintei num porre de cachaça.
Ah, vá não, pô! Agora que tá ficando interessante, que vou mostrar minhas cicatrizes na cabeça... Olha, olha, olha. Aqui, aqui, aqui ó. Tudo porrada de mulher, porque acharam que as tratei mal, será verdade?
Ah, nem todas, essa aqui foi quando caí do quinto. Tá, uma mulher me empurrou, e nem doeu tanto. Peguei um guardanapo e fiz isso, é arte, coisa linda, não?
Tá, pode ir, já pode ir, não falo mais.
Não disse que era pra ir? Quer que eu fale da camisa? Não, não conheço o cara. Ele fugiu com Judith, minha ultima, como é que falam por aí? Peguete. Nome engraçado esse: peguete. Ei, moça: quer ser minha peguete? Só hoje, a gente dorme de conchinha que nem casalzinho virgem.
Passo os dias sentado aqui, acham que sou louco, que fico na rua, aí me dão sopa, dinheiro, essas coisas. Mas moro ali no quinto, todo mundo me odeia no prédio, mas ninguém diz nada porque tem medo, inventaram uma história -tá, fui eu- de que eu tinha matado uns aí nas bandas de Mata de São João, mas não encontraram vestigio. Judith as vezes passa aqui, fica ali ó: do outro lado da calçada me olhando com um olhar de pena, e a barriga crescendo. Acho que ela conversa até com a barriga me olhando, ela acha que o filho é meu, mas pode ser de qualquer um. Eu disse isso pra ela: Judith, você é minha peguete, pode de ser de qualquer um. Ela chorou, e aí fugiu com o outro lá, esse da camisa. Mas acho que ela era só peguete dele também, e aí ele fugiu da barriga. Quando ela tenta conversar finjo de doido, e aí todo mundo olha estranho pra ela. Moça de familia, formada em artes-plásticas, riquinha do corredor da Vitória. Disse que largou tudo por mim, mas que pessoa é idiota o bastante pra largar tudo por causa de um fracasso? Eu não apostaria um centavo em mim, e tenho dito.
Não, não quero mais conversa não. Cês ficam só aí me filmando, perguntando coisa, e não sei o quê... Porra, sou palhaço não.
Pra não dizer que sou ruim, tó aí uma arte pra vocês, é de rodar, tá vendo? Deixa tonto.
Vai pra casa e enfia essa fita no...

tuiu




Um comentário:

Nina. disse...

não pare de escrever e nem de usar todas as vozes que você guarda dentro de você.
todas são reais, todas tem o que dizer - acredite nisso todos os dias depois que acordar.
lave o rosto com a verdade do que você tem pra escrever e mostrar.
e olha que eu não to pedindo não.

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