quinta-feira, 10 de abril de 2008
"Zazie fait de la bicyclette..."(Plasticines)
Zazí
Foi no principio, com uma troca ingênua de olhares:
Diz que não, diz que não, diz que:
- SIM![Precisa dizer que os olhinhos brilharam?]
Carregou o pacote de pão, andou meio bêbada pela calçada, intentou cair umas várias vezes, mas se soube ser firme até deixar o coração bater menos acelerado, o rubor [quase]sumir do rosto e o folêgo voltar junto com a voz para aí sim bater a porta do quarto e junto com o barulho estúpido da porta gritar de felicidade e deixar umas lagrimazinhas fugirem dos olhos.
Ela pensou que disfaraça, mas tava escrito na testa: Zazí estava apaixonada pelo rapaz da padaria.Um encanto repentido que apareceu do nada, como todas as paixões.
Certo dia simplesmente reparou algo que sempre esteve em sua frente o tempo todo, mais precisamente há exatos 11 meses. Ele contou.
Rapazinho boa praça, jeito meio timido com um tique nervoso que o fazia soltar piscadelas involuntárias quase toda hora. Zazí achava charmoso, bonitinho o jeito timido e as piscadinhas que ele soltava. O sotaque do interior também era uma gracinha, uma arrastar diferente; um devagar gostoso perfeito pra falar bobagens ao pé do ouvido.
Hoje é dia vinte e cinco. Amanhã Zazí vai dormir com ele à primeira vez, vão ver o circo e depois...
Teve que mentir pros pais, disse que ia com uma amiga da escola, sabia dos ciúmes que o velho tinha, filha única, bem criada, bonita mesmo, com o corpo aparecendo. Haviam mil, dois mil loucos pra ver o que havia por debaixo da saia de colegial. Dez mil loucos pra sentir a maciez daquela pele de quem acabou de nascer. Cem mil queriam sentir o cheiro dos cabelos... Um milhão queriam coisas e coisas e coisas que não se é capaz de contar, e paremos por aqui.
O velho sabia, pai e mãe farejam longe essas coisas. Ao menos os de Zazí são assim.
Vinha como quem não quer nada com presentinhos, mimos e afins: cocadas, prendedores de cabelo,sapatos, espelhos, tiaras, mosquitos[É, Zazí tem coleção de insetos] e soltava perguntas inocentes cheias de malicia:
- Filha, conheceu amigo novo?
- Não, pai.
- Filha, como foi o dia?
- Ah, normal.
- Que fez de bom?
- Eu? Nada.
E deixou passar, passar e ir passando.
Em um mês Zazí aprendeu tudo, Zinho ensinou direitin, do modo que sabia cada coisa: beijo de língua, mordida no pescoço, na orelha, umas frases diferentes que davam arrepio no cangote. Aquilo tudo que o pai dela chamava apenas de coisa de adulto e por isso não explicava.
15 anos e Zazí prestes a ser mulher, se olhava no espelho nua, os seios mais lindos do mundo: Papai nem desconfia.
No quarto Mãe e Pai no vigésimo quinto sono: domingo no parque com Zazí pequenininha.
Meia-noite e quinze, horário para se rememorar. Três batidas na janela. A menina tomou susto,toda arrepiada, meio gaga, tremendo:
- Quem é?
- Zazí, eu não sei esperar...
Abriu rapido a janela. Zinho boquiaberto a olhava. Não sabia mesmo o que falar, menor idéia.
Balbuciou: "um anjo em minha frente..."
Ela riu com a cara do demônio,um riso irrestivelmente profano, um abismo de fogo onde se atirar.
Tudo que durou várias horas até o dia atravessar a persiana, passou num piscar de olhos. Não souberam se desgrudar, que os pais dela entrassem e vissem os dois abraçados na cama,que vissem os dois em um só.
O Pai abriu a porta, olhou para cama onde a menina nua se abraçava com o rapaz. Deu um bom dia sério, como se falasse com estranhos, engoliu a seco aquela cena pelos anos que viriam se passar. Não soube chamar aquela mulher de filha, muito menos de Zazí, apelido carinhoso de Zoroastra. A menina havia morrido ali, entre os prazeres da carne.
Quando Zazí fugiu com Zinho, grávida de três meses, a Mãe resumiu tudo. Pôs a mão no ombro do pai -cheio de lágrimas- e disse, como se também estivesse a se consolar:
- Filho a gente cria pro mundo.
Ao longe o vulto da menina sumia enquanto o sol se perdia no horizonte.
tuiu - 01:17 10/4/2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

O trabalho O Vazio Cego do Medo da Luz do Lado Escuro de Túlio D'El-Rey Almeida foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em ovaziocego.blogspot.com.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em http://ovaziocego.blogspot.com.

Um comentário:
O negócio é que esse blog meu até hoje só foi usado pra desbafar...naqueles pequenos momentos de cólera, em que não dá pra conter o "puta que pariu!"... Como eu não posso dar um berro, abalando as estruturas do meu setor, eu saio escrevendo coisas como essa de não gostar de falar. O negócio todo é que eu gosto de escrever no papel...não me acostumo com esse negócio de teclado, monitor...poesia então...é um parto...
Postar um comentário