quinta-feira, 1 de março de 2007

"Essa dor vale o corte..."


Magritte - Les Amants

Morrer, minha cara, é só uma desculpa idiota que as pessoas dão quando não querem mais saber das outras, e aí fecham os olhos, fingem dormir, como muitas vezes fazemos para pensarem que não estamos em casa ou para não ceder o acento no ônibus para o velhinho capenga que entra pela frente.
Eu já morri várias vezes, nessa vida foram pelo menos cinco, o bom de morrer não é mudar de cara, porque nem muda, o bom de morrer é mudar de nome, porque depois de um tempo, minha experiência indica que entre 2 ou 3 meses após a morte, as pessoas simplesmente esquecem quem você é, lembram sim do nome que você tinha, aí basta arranjar outro, consegue de novo tudo: a casa, as bebidas, os cigarros, as amantes, sim, os filhos insuportaveis também, alguém em você irá impedir de joga-los pela janela do décimo quarto andar, talvez seja amor, ou simplesmente pena daquelas criaturas que teoricamente sairam de você, ou de qualquer outro para quem sua bela e servil mulher tenha aberto as pernas.
Digo isso pra você porque gosto muito, de você, desse teu jeito de menina conhecendo o mundo, essas coisas todas que você sem querer me ensina pensando que tá aprendendo, o aluno aqui sou eu, o que importa mesmo aprender, o que acrescenta: é você quem trás, de natural, sem esforço, e nem percebe.
Admito que essas coisas do mundo, esse negocio de dor valendo o corte, sim, sou eu quem ensina a você, mas morro de medo disso agora, porque sei que está pronta para o mundo, pra não bater mais em minha porta ou me ligar de madrugada assustada querendo a aspereza da minha barba como se o simples fato de estar próxima aos meus pêlos te desse uma força incrivel para sobreviver e aguentar o mundo que vive desabando sobre sua cabeça em casa. Mas nem posso te trazer agora comigo, mal me sustento, mal sei como aguento sobreviver aqui, e pode ser que eu queira morrer a qualquer hora, esqueci de mencionar que as vezes quando a coisa é forte mesmo, nem se esquece, aí fode tudo, tudo mesmo, e eu não poderei aparecer muito perto de sua porta, o minimo resquicio do meu cheiro te fará sentir desejo e vontade de morrer comigo, mas você não sabe morrer ainda, tem gente que leva mais de cem anos para aprender a morrer, algumas pessoas aprendem bem cedo e das formas mais bizarras possíveis, o que não necessariamente significa dor, boa parte sim, não minto. Gosto de morrer do meu modo, com a dor valendo o corte, tendo prazer.
Acha que se a dor não valesse o corte você não teria chegado até mim, seu corpo mede isso naturalmente, nasceu preparada, nem precisava ser bonita assim, bastava mostrar o que tem por dentro e qualquer homem, qualquer um desse mundo, com um pingo de entendimento, e lógica, é claro, não que lógica seja o meu forte, ficaria instântaneamente como eu, num torpor bobo e com vontade de afundar-me mais e mais, lembro que noutra vida morri de medo disso, talvez já tenha até morrido de amor, algo que me envergonho mesmo sem lembrar bem.
Sabe de uma coisa? Se um dia você resolver não voltar mais e não me procurar, não terá problema: me mato e volto coutro nome, e se acaso você estiver com um que valha o corte mais do que eu, morro de vez e nem volto, arranjo uma lápide no cemitério de marmore polido, escrevo teu nome em tom de aviso e digo o seguinte: "Morreu pra esquecer", você lembrará meu nome, verá a data em que nasci, verá a foto ridicula que colocaram e dirá para o seu namoradinho, com desdém: "ah, mais um velhinho que gostava de garotinhas..."

TRA-23:59-28/2/2007

Um comentário:

[uma antropóloga em marte] disse...

ui!
lindo texto...
simplesmente fantástico!!


cada vez mais encantada por suas palavras meu querido escritor!!!

saudade de prosear contigo,
some n!

um beijo

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