sexta-feira, 9 de março de 2007

"Augusto anda tendo dias confusos, Augusto quer aquela paz..."




ANOITECER
(Carlos Drumond de Andrade)


É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.

É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo
desta hora tenho medo.

É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz-morte-mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.

Hora de delicadeza,
gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo.

[Eis um poema que consegue me fazer chorar e dizer com todo um impeto de adolescência e infância que nunca perco: Drummond eh foda...]

2 comentários:

[uma antropóloga em marte] disse...

de fato!

Como está?

um beijo

tangerine disse...

eu lembro desse, dos velhos tempos.

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