Desconstrução...
Ontem a noite ela jurou que iria me desmanchar, não deixaria nada de mim completo.
Simplesmente porque eu não merecia, no mundo dela as coisas são desse jeito: não ou sim, e pronto. Nem adiantava ficar indignado, era uma rainha de copas ali, outra.
Deixou um copo de vinho marcar minha mesa de centro, cruzava e descruzava as pernas com ousadia, queria que eu lesse alguns sinais que no momento eu fazia ser incompreensiveis. Eu havia cansado de joguinhos, caí no vicio, fizeram mal, muito mal mesmo, mas essa parte de minha vida eu não quero colocar aqui, não hoje.
Eu sentia naquele olhar de um modo simples que para ela aquele ser quase estranho desmanchado no sofá era só mais um, apenas mais um tijolo na parede.
"Yes: another brick in the wall."
Ela dizia coisas sem sentido, eu aparentemente não percebi ou entendia.Simples: queria me desmanchar.
Era o relógio andando e eu me desfazendo.
Ela me desmanchava
"E perguntava, e perguntava e perguntava:
Quem é? quem é? quem é?
Quem é que agora está botando dinamite na cabeça do século?"
Tudo girava num turbilhão insano
Redemoinho tomando conta de mim
O riso dela se perpetuando
Só o riso dela
Só riso
Gata de Cheshire...
Noutro dia de manhã
O sorriso dela espalhado nas paredes da casa
Em cada quadro o riso dela espalhado
Perpetuado
E eu sendo varrido pra debaixo do tapete sem menor cerimônia
Ela conseguiu, havia me desmanchado completamente
E quem disse que eu reclamei?
Disse pra que amanhã ela passasse aqui de novo e me reconstruisse.
TRA-18:31 24/2/2008

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