
Forçou a perna a leva-lo até onde parecia não alcançar.
Assim eu me desmancho... Assim eu me acabo e ninguém sentirá diferença... Nada morre comigo, só eu e minhas roupas velhas que mal cabem em mim.
Lá embaixo, onde a cidadezinha miuda se formava com cores e acordes dissonantes oriundos de lugares diversos, uma difusão maravilhosa de pessoas quase de açucar que costumavam se desmanchar sob a chuva realmente parecia se propagar com indiferença àquele que lá em cima, se torcia todo querendo levar as pernas até onde estas pareciam não alcançar.
Numa floricultura, distante dos bares sujos da capital formosa, tudo parecia calmo o bastante, calma tipica de floricultura, necessária para deixar as rosas, os cravos e as margaridas livres da murchidão que sem que estes percebam, ataca os outros pobres mortais.
Maria amava as flores que vendia, por isso não as sabia vender, e elas, as flores, faziam questão de serem elas mesmas suas vendedoras, com cores e aromas irresistiveis que fulminantemente encheriam os corações dos apaixonados até não sobrar nada e estas ficassem totalmente murchas.
Maria pensava no avô, que sentia-se sozinho agora aos 80, depois de duas pontes de safena e da perda da companheira eterna.
Sentia que não valeria a pena estar ali com as flores que tanto amava, se ele, parte dela, não estava bem, não sentia-se preenchido; talvez até estivesse morrendo de frio naquela maldita chuva que não parava ,as dores tão constantes nas juntas talvez comessassem a latejar e ele então precisaria dela, de sua querida e meiga Maria.
No cume da escadaria, já na porta da Igreja, Seu Manuel parecia não acreditar na força do próprio coração, que aguentou subir cada um dos 535 degraus, pestanejando bastante, mas ainda assim segurando o tranco da subida.
Entrou encharcado, mudo e a boca implorando por meio litro de agua.
Três beatas rezavam de negro. O padre conversava com outra delas que se confessava.
Seu Manuel entrou na fila.
Maria pensou no avô com mais força.
Os cravos disseram que ela fosse, as margaridas tanto faz, e as rosas fizeram doce para que ficasse mais um pouco, ficou mais 5 minutos, rosas costumavam ser irresistiveis.
Mas a voz da razão, dos cravos, foi mais forte.
Pegou o primeiro ônibus que fosse para casa, precisava ver se o avô estava bem.
Seu Manuel tremia, o coração parecia estar pedindo perdão, enquanto ele se confessava.
Maria chegou em casa personificada em chuva.
Maria olhou as fotos na sala, sorriu e chorou com cada uma delas.
Maria sentia, nesses sentimentos de alma, que talvez só sobrassem elas.
O avô não estava em casa, havia um bilhete sobre a cama.
Seu Manuel implorou àgua ao padre, tremendo e ficando roxo.
Maria leu os versos:
Se fosse por Maria:
Ao Mar ia até o fim
Amar ia até o fim
Amaria até o fim...
Seu Manuel voltou para casa para encontrar sua Maria que o esperava sentada sobre a cama com uma duzia de rosas nas mãos.
O Avô da Maria não voltou mais.
TRA-01:05-14/2/2007

Desaprendi a arte de fazer versos
Pior de tudo: era parte da minha vida
Isso, fazer versos, era parte de mim
E agora vivo de canções inacabas e contos
Queria lembrar quando e onde foi que me perdi
Que boca me roubou a poesia, para eu beijar de novo e pegar de volta
Por que nas horas que o corpo quer por pra fora algo que preste e que não seja pichação
É de versos que preciso, e não paragrafos que não sei fazer
O que me falta agora além de amor e uns tragos de bebida?
Poesia, é isso que me falta, sentir como antigamente
e sofrer como sempre.
TRA-01:21-14/2/2007

Um comentário:
Bom, muito bom! Na realidade... Ótimo você ter voltado Sr. Túlio Rey... "ai de você que não voltasse!!", rs!
Pois então, bom ter suas letras entrando por meus olhos e encantando-os pelas minhas horas vagas pela internet!
rs,
sou sua fã seu piolho negro!!
um beijo
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