quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
"Here she comes. You better watch your step. She's going to break your heart in two: it's true"(TVU)
*Ela e aqueles três*
Era de um temperamento dificil: dizia que queria, depois vinha com um não quero sem porquê. Algumas vezes dizia que era porqueradoce, outras porqueramargo, outras porquerazedo, outras porquerasalgado; e outras pornadamesmo.
Sentava satisfeita mostrando os dedinhos bem feitos dos pés com as unhas todas pintadas, uma de cada cor, para andar com arco-iris; coisa de menina boba, que ela relutava em admitir que tinha, mas quem não reparava? Só o seu Manoel, que era cego, e mesmo assim sentia no ar, um cheiro de infância que ela deixava escapar por debaixo do braço enquanto desfilava o último vestido que acabou de ganhar.
Apesar disso tudo, e havia mais um pouco, ou muito mais, me apaixonei.
A principio pela mulher, mas a menina veio junto, e aí ví que era dessa que eu gostava mais,a dos não quero sem porquê e das unhas coloridas, uma de cada cor.
Assim, quando ela chegava me olhava quente, me fazia vermelhecer, mas aí eu olhava para baixo e via os dedos pintados, e aí sorria, e aí vinha um sol quente na minha cabeça, e já não estavamos onde deveriamos estar, era um lugar qualquer com cara de infância onde nunca chove e tudo tem uma neblinazinha gostosa com cara de lembrança, que nem coisa de filme água-com-açúcar que aparece as vezes, e ela vem menina olhando para mim com um vestido azul, com uma fita no cabelo e me pegando pela mão para dar o primeiro beijo.
Em verdade me enganei, deixei levar.
Aqueles olhos ali guardavam mundo para mais de uma gente, para mais de mim. Ela era enorme,e precisava de mais alguns como eu, que soubessem entrar nela sem machucar, mas eu sempre era o primeiro, prioridade, ela dizia. Não que eu acreditasse, sempre fui esperto pressas coisas, sabia mais ou menos quem eram os outros dois, ou três, não sei ao certo, eles também sabiam quem era eu, que era eu, posso até soltar algumas consoantes e vogais, mas ficarei calado, não cabe mais ninguém nesse balde agora, e eu não quero outros que não seja só eu, ainda guardo ciumes, poucos, mais guardo.
Talvez fosse interessante dizer como terminou, o que houve com ela, ou talvez com os outros dois ou três, que podem ter aguçado a curiosidade de alguém, mas como já disse, não falarei mais deles. Dela eu até falo, mesmo achando que já perdi tempo demais escrevendo sobre ela, que deveria nessa altura ser um egolatra antipatico e falar da minha vidinha miseravel, mas eu sei que não querem, sou só coadjuvante nessa história, com certeza são mais interessantes os outros dois ou três e ela, não os culpo, não tenho mesmo graça.
Ela me deixou num dia 25 de Novembro, chovia, sempre chove nessas horas?
Me olhou com àgua, eu pude perceber tudo antes das duas palavras.
Apertou o lençol com a mão, mordeu de leve os lábios, apagou, e voltou 2 segundo depois olhando para mim séria dizendo simplesmente isso: já vou.
Compreendi, ela nunca dizia isso. Nunca houve adeus, ou já vou entre a gente, nem volto logo ou coisa assim, nunca, era sempre eterno, sempre agora, sempre sempre.
E nunca mais a vi.
Talvez não tenha mesmo graça contar assim, mas foi assim, não tenho porque mentir, mentiria se contasse um romance lindo e que terminasse tudo maravilhoso.
Ela resolveu ser de um só, um dos outros três, que conseguiu preenche-la por inteiro, não me pergunte como, se soubesse ainda estaria com ela, juro.
Bem, ela ficou com o ultimo dos três.
No fundo eu só suponho, já que ainda não a vi, com nenhum dos três, mas tenho quase certeza, já que esse aí, o último dos três, é o único que sobrou vivo pra contar história, os outros eu simplesmente apaguei, fiz entender como doia em mim aquilo tudo, espero que tenham entendido direito, se não, que leiam isso, talvez ajude.
TRA-00:10-24/1/2007
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O trabalho O Vazio Cego do Medo da Luz do Lado Escuro de Túlio D'El-Rey Almeida foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
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Um comentário:
Adoro essa música Munanga...a menina colorida me lembra Lolita, num sabe?
Olha que vc tá quase no ritmo do García Marquez...Delgadina?
"Só passando por muito eu sei o que é dor (...)"
bjim flornoasfalto
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