domingo, 14 de janeiro de 2007

"Olhos nos olhos\Quero ver o que você faz\Ao sentir que sem você eu passo bem demais"(CB)

Imagem de Kaare Andrews, mais em: http://www.kaareandrews.com


"Aquilo ali no chão reconheci: meu globo ocular. Era esse o pedaço de mim que ela quis levar, foi por essa merda de olho esquerdo que ela revirou meio mundo?
Se ela quis me mostrar o quanto doía, achou a pior maneira para mim e a melhor para ela, me fez o mundo ficar pela metade.
Por incrivel que pareça, não prestei atenção alguma no olhar dela cheio de sangue e no sorriso que escorria pela boca, fui egoista mesmo, pensei primeiro da droga do olho, e o quão doloroso era fazê-lo estar fora de mim.
Ela brilhava, sinceramente, nunca tinha visto aquela mulher tão linda, nem nas nossas melhores noites.
E aquilo me acalmou, chegar a essa conclusão no apíce de uma dor filha da puta foi minha anestesia, saber que era sim uma divida que eu estava quitando, que a minha dor dava a ela o prazer e a beleza que toda mulher desse mundo gostaria de alcançar, e ela tinha, as custas de um simples globo ocular no chão e dos contorcionismos faciais de um idiota que atirava-se em dor após ter o olho esquerdo arrancado.
Aceitei de bom grado e fiquei calmo, enquanto ia fingindo caretas canastronas a fim de prologar o gozo da minha amante algoz.
Ela se cansaria cedo ou tarde.
Mas se passaram 2 ou 3 xícaras de café e meu olho continuava no chão, lotado de formigas, e o sangue começava a coagular sobre a minha barba rala. Havia algo errado ali.
E se esse meu espetáculo não acabasse mais? E se tivesse eu que viver atado àquela cadeira de dentista com um olho predestinado a putrefação e um corpo a autofagia?
Não, destino assim não valeria a pena, nem para ser martir, ser o martir do mundo dela: dessa louca que se entope de café enquanto meu olho agoniza no chão o peso das formigas e meu corpo formiga da inércia de estar atado a uma cadeira de dentista.
Está certo, assim que der eu fujo. Cato o que sobrar do meu olho, para terem como base meu futuro olho de vidro, e amarro essa vagabunda na cadeira deixando entre as pernas dela uma vassoura para que ela lembre que fui eu que fugi.
Seria fácil, mas ela não desiste, não sabe pregar os olhos.
Quero ver tua língua, ela diz segurando ameaçadoramente uma colher de pau.
O quê?
Tua língua porra! Tua língua que você sabe usar tão bem.
Enrolei dentro da boca, sabia que seria outro pedaço de mim no chão para as formigas e mais dor para meu corpo debilitado de tanto sangrar e pouco comer.
E levei no meio do nariz uma colherada, era mais sangue indo de encontro ao meu queixo e minha barba rala.
A língua!
E outra colherada.
A língua!
E outra.
A língua!
E outra.
Até a hora que a mão cansou e a colher partiu-se em duas.
Minha cara. Eu tinha cara ainda? Era carne inchada lambuzada de sangue.
Língua intacta... Dormencia total, tem horas que doi tanto que o cor pra não sentir dor dorme.
Nessa hora já estava fraca, com a roupa toda suja de sangue, com o olhar de derrotada, com os cabelos desgrenhados, sem olhos vermelhos, sem prazer alguma a flor da pele.
Desisti, me disse.
Desatou. Entrou no banheiro e foi tomar um banho frio.
Disse que eu não precisava me preocupar com a sujeira, que fosse embora logo e não voltasse. Aceitei.
Saí cambaleante e fraco, com minha cara inchada numa alusão bizarra ao cubismo.
Procurei pegar o primeiro ônibus. Sentei no fundo e fui parar no primeiro hospital que encontrei: um manicômio de onde nunca mais saí, e ela não era louca."

TRA-02:53 14/1/2007

Um comentário:

Anonymous disse...

Que bom que a safra de palavras continua...sabe que te vi voltando do Círculo? (eu já tava no busú...)

bjinhos flornoasfalto

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