Todavia, imensidão assim se faz
de mínimas partes, ruínas quase indivisíveis, átomos de poeira cósmica, coisa
que está no ar e nunca se percebe. Se ela se distraí olhando as vitrines, é
simplesmente porque no reflexo e na imaginação das roupas a enfeitar seu corpo
há muito mais gozo do que ater-se à tentativa vã de observar cegamente aquilo
que se espalha no ar quase imperceptível.
Mas, cedo ou tarde, porque, meus
caros, é totalmente inevitável, dá-se conta dessas mínimas partes na ponta do
seu nariz, e demora a esquecer-se de que por anos elas simplesmente inexistiam.
Passa a aspirar o ar avidamente, sorvendo desvairada tais átomos de poeira
cósmica, até o momento em que simplesmente deixa de percebê-los, e volta a se
ater às vitrines, olhando as roupas e o próprio reflexo, na vã tentativa de
reparar um ciscozinho na ponta do nariz novamente, sem saber que é na
desistência da procura, por ato de mera displicência, que ganhará o dom de repará-los
outra vez, e assim a história se segue, até o dia em que a velhice consuma o
corpo e fiquem só as lembranças disso que escrevi... escrito nas palavras dela.

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