segunda-feira, 25 de julho de 2011

Era

Aposto que sou o herói mais triste que você conheceu.
É verdade: as pessoas me olham com admiração... e medo.
Tenho o mundo aos pés, e minhas mãos são capazes de destruir em segundos coisas intangíveis.
Você, pequena a me olhar como se fosse uma menina de sete anos.
Teu herói tristonho, que não entende como teus olhos brilham por me ver.
Você sorri, pega minha mão, e me chama pra dançar...
Meus pés enormes, destruidores, capazes de destruir teus sonhos e tua leveza em segundos.
Afaste-se, penso.
Parece amar destruição, penso de novo.
E não resisto, meu corpo enorme e grosso numa imobilidade inversamente oposta à minha capacidade em destroçar mundos, vai de encontro a teu, minúsculo.
Corpo leve de bailarina, inseto gracioso que levita por entre as flores.
Dançamos ao ritmo da chuva que cai sobre nossas cabeças, alta madrugada e a cidade se apagando. Não relampeja, como seria de praxe nos filmes ou nos quadrinhos.
Me aproximo com medo, agora sou eu que temo o corpo frágil e frio que aquece algo em mim que não bem entendo.
Tantos anos salvando o mundo como pretexto para afastar-me das pessoas, nunca haveriam de me compreender.
Até o momento em que você me olhou como se eu não tivesse uma máscara ridícula junto a uma fantasia berrante colada ao corpo, e parecesse um monstro com dois metros e meio de altura.
No meio dum rodopio lento, encosta a mão em meu rosto, como se houvesse algo a admirar.
Como um imã, me atrai até seu rosto. Sinto ar quente da boca e das ventas.
Você ri, sente que eu nunca havia passado por aquilo.
Me toca os lábios, roxos e quentes.
Perco a noção do mundo, a chuva deixa de incomodar. Somos só nos dois num imenso vazio cheio de vida, nesse momento nosso mundo somos nós.
Sós e somente sós, nós.
Aposto que era o herói mais triste que você conheceu... ERA.

tuyo

Um comentário:

Sonora disse...

A Sonora Melodia sente muita falta de encontrar O Vazio Cego do Medo da Luz do Lado Escuro.

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