"Mas iludi-me... e presencio agora Que, se a guerra devasta, a paz corrompe. Destes sucessos me descobre a causa, Celeste guia, e se da estirpe humana Deve acabar-se assim vida e memória.”(John Milton - Paraíso Perdido)
Lúcifer - Gustav Doré 1866
Dor nas têmporas, a memória cansada, mil quinhentos e trinta e seis... Amanhece outro dia, eu cá cansado a ter esperança, mil quinhentos e sessenta e cinco... Ângela e Agnela, tristes com saudade de mim, ou só achando que sou mais um cafajeste. A velocidade dos nomes das pessoas que conheci em minha mente torna tudo ainda mais dor.
Meu cérebro inchado, querendo se livrar de tudo o que soube e sabe, plena atividade de autodestruição.
Na porta de casa a mulher de branco que vendia cocadas, sempre às 04 da tarde, com o sorriso amarelado e feio mais simpático do mundo, eu garrado na saia da minha vó, minhas mãozinhas gordas a morder os meteoritos de açúcar e coco. Anos depois a diabetes, e nunca mais pude por minhas mãozinhas gordas em cocadas, e a mulher de branco nunca mais sorriu pra mim.
Agnela com cinco anos, girando um pião, o mesmo que minhas mãozinhas gordas giraram outrora, Ângela no hospital a se recuperar da tentativa de se matar. Eu olhando vazio para a minha menina que pedia insistentemente que olhasse quanto tempo ela mantinha o pião a girar. Tinha sido minha culpa, sempre acreditando na ubiqüidade de estar aqui e não estar ao mesmo tempo.
A melhor proposta do mundo: diamantes de sangue e minas de carvão. Seis meses, apenas seis meses e uma vida inteira para gozar com minhas garotas, poderia estar lá e simplesmente estar, a todo tempo.
Humanos, acreditando nas vãs ilusões que a vida parece oferecer milagrosamente de graça.
E cá estou esperando simplesmente a hora em que meu cérebro vai se apagar, como uma estrela que vai morrendo aos poucos, nessas horas a noção de realidade é apenas um detalhe ante todo o turbilhão do mundo explodindo dentro de mim.
Dormência no corpo, batimentos cardíacos fraquejando, meus olhos à duras penas voltam das piscadas que dou. Aos 40 e poucos me sinto com 90 e tantos, e contando...
Mil novecentos e quarenta e sete...
O cubículo lúgubre e as paredes frias de concreto, o homem que vai mirrando nesse minúsculo espaço... Meu mundo se tornando simples e só... Espero que agora, sem minhas memórias, as memórias dos outro de mim também se esvaia. Não quero ser uma daquelas estrelas mortas há quinhentos anos que ainda brilham por aqui, e admiramos ao olhar pro céu como se fossem de verdade.
Será atormentado pelo fogo e pelo enxofre diante dos seus santos anjos e do Cordeiro...
Apocalipse.


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