terça-feira, 19 de agosto de 2008

"A Ana não existe..."(Ana Cañas)

Ana não dorme

Assim que voltar dou novidades, curiosidade pouca é bobagem, mínimos detalhes, nomes, datas, lugares, doces, beijos, impossíveis, inomináveis...
Dormi numa pensãozinha do centro, sono barato ao preço da cama. Dona Nita e Dona Helena, senhorazinhas que sabiam tratar todos bem, com um sorriso enorme convidando sempre ao volte sempre, volto sim,volto.
Buzinas até as 03 da madrugada, silvo de cobras no banheiro, tive medo de entrar, fosse o que fosse (o fosso?). O Manoel era um barbudo comunista que com certeza ficou congelado desde os anos 60, e só agora voltou a ativa. Dizia que era tudo um plano louco, que a democracia era coisa do demo mesmo, que os milicos era só uma cerejinha no bolo, o pior era mesmo o computador que já tava na casa de todo mundo, dia e noite escrevendo sobre isso, um livro que se chamaria: aquele fim era só um começo, título interessante.
A Ana do quarto da frente disse que o Manoel havia usado ácido demais, e morreu por lá, há quarenta anos. A Ana sabia conversar de coisas estranhas, isso me encantava. "O cosmo é uma coisa maior que a alma, eu vejo. O seu tá nas alturas, por isso que eu gosto tanto de ti, amo pessoas de cosmo grande." Não que tivesse haver, mas acho que ela tinha razão, a junção dos cosmos é uma coisa louca, o dela era dos maiores, me garantiu, o meu não era muito diferente... Ela me mostrou os cantos escuros da cidade, onde a lua brilhava forte e as estrelas ofuscavam a vista da gente, os mesmos lugares onde nossos cosmos puderam se encontrar de forma plena, juntos éramos um universo inteiro, "coisa grande", ela disse.
Mas eu tive que ir, porque o dinheiro não deu, foi a desculpa. Mas eu tava cansado, Ana era incrível, aquele papo estranho dela, o negócio de ser bruxa e tal, de sentir em mim até o que eu não sentia me fazia querer ficar uns anos ali. Mas tinha prometido voltar a tempo do casamento de Judith, porque ela queria ouvir de mim que não era o homem certo dela. Até aí eu não sabia ao certo se diria o que tinha que dizer, ou se puxaria pelo braço e iríamos nos jogar por aí juntando cosmos, como a Ana me ensinou.
Eu bati na porta as três vezes e meia, que era o código cabalístico do meu nome. Ana abriu a porta nua, me puxou para dentro,e antes que eu dissesse qualquer coisa:
- Pede a ela que fique. Vão terminar tudo em três meses, mas vai ser o melhor pros dois. Guarda isso no bolso da frente que te protege de tudo quanto for dor.
Respondi boquiaberto, fingindo já prever:
- Certo.
Me beijou demorado, e sorrindo me disse:
- Cê volta, eu sei. Nossos cosmos se atraem.
Tive de falar com Manoel, que parecia ignorar minha presença no quarto dele.
- Cara, já vou.
Sem parar de escrever, falou, com tom desinteressado:
- Certo, camarada. Te mando o livro quando acabar. Cuidado com os computadores, tão na cola.
Sorri, era um cara legal, louco, talvez.
Dona Nita e Dona Helena queriam me fazer ficar, olharam com os olhinhos cansados de tanta coisa estranha da vida, mas tive de recusar aos apelos, porque Judith precisava de mim, Ana dit ça.
Assim que cheguei a estação me perguntei porque raios eu tinha saído, e não soube responder, o motivo havia se perdido em alguma parada no caminho, isso diminuía um pouco o peso de tudo. Teimei em seguir adiante.
Ninguém falou comigo por três dias, eu tentei manter contato, perguntei que horas eram, pedi desculpas por balançar um pouco os assentos, por me espreguiçar de mais e bocejar alto, e nada.
Meu companheiro de leito era um mudo, que não largava um rádio antigo naquelas AMs que só tocam musicas dos anos 50 e 60, samba-canção e bossa nova. Dava um sono desgraçado, mas pelo menos era bom gosto para mim. Chico cantando com vozinha de menino Carolina, lembrei da vó, quase chorei,quando é que cresço?
No terceiro dia Ana veio conversar comigo, telepatia. Dizia coisas impensáveis, ela cuspia poesia. Judith me aparecia às vezes com seus 18 anos pueris quase estúpidos, o laço de fita, os olhos semicerrados, riso bobo, um anjo inútil em minha vida.
Ana era o demônio encarnado, com os cachos desgrenhados ardendo em fogo, olhos negros adornados de orelhas por incontáveis noites sem dormir, o cosmo, a vontade constante emanando em mim...
Duas galáxias diferentes e distantes que mexiam dentro de mim coisas opostas. Matutei isso por quilômetros, até a hora em que compreendi: as duas juntas beiravam a perfeição.
O plano começava a se traçar: deveria ir atrás de Judith e atraí-la até Ana. As duas precisavam de mim e eu tal qual delas.
Voltei tudo.
Ana não me visitava mais por telepatia. Ela na certa já sabia, mas não arredei pé.
Judith se olhava no espelho penteando os cabelos lisos e aloirados,eu voyeurizava. Dei um assobio, o assobio que eu dava chamando ela pra dança. Chegou na janela com o busto palpitando, me olhou com olhos cheios d’água, disse que sentiu... que sentiu minha falta, que deu medo de eu não voltar, de eu achar uma outra qualquer e sumir no mundo por culpa de um bucho cheio. Jurei que não, jamais faria. Não mencionei a fuga, ela vinha seguindo meu rastro, a saia roçando em minha calça, o cheiro chegando e chegando e chegando, no meio do caminho ela que arrastava a mim. Pensei em Ana, o céu brilhando: era o cosmo, ela via de longe tudo que se passava; eu e a menina Judith pegando carona pro nada ao encontro dela.
No caminho fui contando, do mesmo jeito fiz por agora, expliquei tudo, do cosmos, de Ana, da gente, de tudo de bom que aconteceria com todos juntos; felizes, completos, alinhados numa órbita só. Aceitou de bate - pronto, antes não fizesse.
Bati na porta da pensão, recebido no meio de uma noite de chuva com o amor e o sorrisão de dona Helena e dona Nita que viam na TV um episódio de Carga Pesada. Perguntei de Ana, dormia no quarto,disseram. Pensei comigo: não, a Ana não dorme.
Bati três e meia. Abriu, puxou nós dois: Judith e eu.
Aquela noite... Esquecer? Como?
As duas nuas, se encontraram, se olharam, se jogaram uma na outra, eu incrédulo. Sem palavras.
Ultima coisa que lembro: o clarão. Duas dimensões se encontrando, um choque de universos, Big bang recriando planetas...
Cosmos enormes, pensei.
E nunca mais nada.

PS. Se não for pedir muito, avisa por aí que aqui dão eletro choque, dói a beça, meu cosmo anda fraco...

Tuiu

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