segunda-feira, 17 de março de 2008

"But I can't help falling in love with you..."(EP)

Clematis Integrifolia 'Amelia'


A queda de Amélia

Tava escrito na testa: impossível. Arriscou atirar contra o alvo e obviamente se perdeu. Mais um tropeço da vida. Podia se dar ao luxo de tropeçar, aos dois anos o pai a havia autorizado: "A vida é feita de algumas quedas e vários, muitos, tropeços. Tropeços são inevitáveis, é bom tê-los para aprender a se livrar das quedas."
Com essa idéia na cabeça, desde a tenra idade se dava ao luxo de caminhar sem olhar por onde ia. Os pés costumavam ficar inchados sempre, dada a teimosia que tinha aliada a mania de andar aos tropeços. Fato é que chegou aos 15 anos sem jamais ter tido uma queda, o nariz sempre empinado, lá no alto, pra cima. O pai havia avisado sobre as quedas, ela havia esquecido de tanto tropeçar: "olhe bem em que buraco você cai filha."
E caiu em amor por alguém.
Caiu em amor por um rapaz com o estranho nome de Abismo, vinha de um lugar estranho com nome quase impronunciável que infelizmente não sei escrever.
Abismo, um rapaz estranho de cabelos encaracolados que cumprimentava Amélia toda vez que ela passava por sua banquinha de flores. Foi passando pela banquinha de flores que Amélia machucou o joelho.
- Bom dia, Amélia!
- Bom dia, Abis... Pá!
Foi nesse exato momento,quando sua rara habilidade para andar aos tropeços sem cair, a fez tombar amorosa pelo estranho de cabelos cacheados.
- Eu tenho uma flor que cura isso: margarida.
- É, a dor passou.
Ele riu, porque viu nos olhinhos dela a inocência de quem sentia aquilo pela primeira vez, e não estamos falando de dor.
Tinha meia dúzia de cicatrizes espalhadas pelo corpo, testa, braço, antebraço, mão, joelho, pé... Afinal, tropeços também deixam suas marcas, não tão profundas quanto o corte no joelho curado com uma simples margarida.
Era perceptível a mudança na menina, passou a andar atenta a tudo, olhava bem para o chão,contava os passos, contava com mal me quer e bem me quer a margarida e no outro dia fez questão de passar beeem lentamente na frente da loja do rapaz de nome estranho.
- Bom dia, abismo!
- Ei, já viu as tuas?
- Minhas o que?
- Irmãs. Ta vendo essas flores aqui? Têm o teu nome: Amélia. São muito bonitas também, mas não possuem o teu cheiro; têm ciúmes disso seu(disse em voz baixa).
E não havia mais nada, só a marca no joelho e as flores azuladas e o rapaz de cabelo cacheado.
- Para que mais? me diga. Se perguntava no espelho.
E nesse amor de flores azuis ficaram durante um mês.
Até o dia em que surpreendentemente passou pela banca de flores e eram um outro rapaz que ali estava, sem cachos, com um olhar perdido de que não entendia nada, com uma flores sem graça...
- O Abismo, onde está?
- Voltou para casa ontem, precisou ver a mãe.
- E volta?
- Não sei, parece que só sobrou ele para cuidar da velha.
- ...
- Você é a Amélia, a menina da flor azul?
- Sou, ou era, não sei mais.
- Ele deixou um recado. Toma essa caixa.
O que haveria deixado de importante? Pedidos desculpas? Uma passagem pro lugar onde ele estava? Vazio?
Abriu a caixa, e se viu espelhada.
Um bilhete dizia: “guardei aqui a flor mais bonita e com o cheiro mais gostoso. Prometo que volto.”
Ela soube esperar, esperou muito tempo. Não foram seis meses, nem um ano, foram três anos em que passava todos os dias em frente a banca de flores esperando Abismo voltar.
Quando a esperança já tão franca jazia quase morta no coração da menina, agora uma mulher, uma voz surgiu do outro lado da calçada:
- Linda flor!
Não soube como reagir, esqueceu o que o pai havia dito e caiu, em amor, no Abismo. Ninguém sabe onde foi parar...

tuiu

Nenhum comentário:

Licença Creative Commons
O trabalho O Vazio Cego do Medo da Luz do Lado Escuro de Túlio D'El-Rey Almeida foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - CompartilhaIgual 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em ovaziocego.blogspot.com.
Podem estar disponíveis autorizações adicionais ao âmbito desta licença em http://ovaziocego.blogspot.com.