
[*Inocência Pisada*
Refluxo do futuro
De um pensamento insano
De um tiro ao contraplano
E a vontade de gritar
Me toma a alma
Mas me cala o pensamento
Pois de um tiro vem o rebento
Sem vontade de chorar
Mas um latido
Triste vem pela janela
Um cão que chora junto a vela
Do ladrão que viu matar
Não compreende
A cavalice tão humana
De uma figura insana
Impedida de gritar
Eis que uma estrela
triste rompe a madrugada
E o povo na enseada
Vem com fogos se alegrar
Enquanto o cão
Triste morre na calçada
Com a vela já apagada
Pois ninguém o viu chorar...
TRA - 29/03/04]
*Inocência pisada num cárcere*
Jazia perplexa ante a própria violência; isso mantinha a inocência do rosto quase magro.
Possuía infância tardia que só apareceu aos 22 e depois do quinto filho: eram seis crianças em casa com um homem bruto.
Ricardo bebia muito, mas pouco se comparado a quantidade de socos e pontapés que dava na mulher quando bebia.
Ela aceitava tudo, menos quando os calos grossos dele ousavam tocar em algum dos outros cinco.
Noite passada escolheu ir de encontro ao Gabriel, caçula de seis meses. Não houve erro maior, terminou jorrando na sala litros de alcool com hemoglobina, doía tanto que foi capaz de chorar, menos que ela: com a inocência pisada, de cócoras, parindo uma dor imensa que não sabia conter plenamente, é preciso aprender a conviver com o fruto desse parto, amargar o corpo na escuridão.
Ouviram os gritos agoniosos dá dor dele e dela juntas.
Chegaram os homens de farda armados, puseram algemas e fizeram ela aprender à pulso como conviver com o fruto do hediondo parto que acabara de cometer; restaram na casa 5 crianças e o corpo de um homem bruto.
Anos depois, eram 5 homens brutos e uma criança abortada numa cela escura.
(TRA - 03/04/07)
"Eram histórias traumáticas perdidas num livro sobre história moderna, a pele branca demais se avermewlhando na cara úmida, soluços ecoando vazios de sentido num corredor da cidade em ruínas.
Queria expurgar a dor dos dedos calejados. eram oito anos e com certeza não haveria saudade alguma da aurora da vida, a fome chegaria ás nove horas e só havia o pó dos escombros como alimento do corpo raquitico; o pó que rodiava udo e todos era resto mastigado de rotinas destuídas em nome da cruz torta e por um Deus-robotizado, nessa hora sim, o futuro desenhado pelos profetas em sangue seco fazia-se presente, mais comtemporâneo do que os anúnicos animados que o rádio fazia chegar todos os dias.
Havia uma certeza de que o corpo raquítico aguentaria mais 40 ou 50 anos pra escrever tudo, reescrever as reminiscências curas à sangue seco como faziam os profetas; e sua previsão é pura mnemonia.
No sétimo dia da fome alimentada por escombros chegaram os homens de língua estranha, com sorriso no rosto avisando sobre liberdade; sim, aos oito anos estava livre novamente.
Mas não pôde aproveitar a liberdade adiquirida, não podia criar vida do nada, morreu de grio e dome a 500 metros de casa, daquela casa perdida que não existe mais..."
(TRA-09/04/07)

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